SEJAM BEM VINDOS!!!


segunda-feira, 30 de julho de 2012

DO JORNAL CORREIO DE UBERLÂNDIA

26/07/2011 17:07

Minha amiga Beatriz do Blog Moro em um KINDER OVO,foi a este festival.Vejam no blog dela como foi o seu passeio!

Esta reportagem retirei do jornal "CORREIO DE UBERLÂNDIA  

Festival de culinária “Igarapé Bem Temperado” começa na sexta-feira


Este ano, os destaques do Igarapé Bem Temperado são os “guisadinhos”
O projeto Igarapé Bem Temperado, em Igarapé, região metropolitana de Belo Horizonte, chega a sua sétima edição, com três dias de evento gastronômico aberto ao público, na Praça Miguel Henriques da Silva, de 29 a 31 de julho.
Guardiãs das mais antigas tradições da cozinha mineira, as senhoras chamadas “mestras da culinária” de Igarapé mantêm hábitos alimentares centenários, plantam, colhem os principais ingredientes para suas refeições em seus próprios quintais, verdadeiros oásis no centro da cidade. Desde 2005 elas se unem para a realização do festival que, além de proporcionar uma grande festa e a degustação das iguarias ao grande público, traz um resgate da tradição dos quintais e mantém viva a cultura e a culinária da região.
“No início, muitos não acreditavam em nós, mas abraçamos a causa e hoje o evento é um sucesso. Nós (as mestras) somos o eixo, mas a família toda ajuda. E o maior lucro é ver a praça cheia, as famílias reunidas para experimentar os pratos. Sempre sonhei em poder mostrar os segredos da nossa comida, nossa forma de se alimentar”, disse Maria Nunes Silva, de 69 anos.

Sobre os pratos

Este ano, os destaques do Igarapé Bem Temperado são os “guisadinhos” de ingredientes colhidos nos quintais das mestras e que fazem parte do dia-a-dia da cozinha tradicional da cidade. D. Lúcia Cordeiro e D. Esmeralda irão preparar um guisado de umbigo de bananeira com frango. Entre os pratos mais originais e de personalidade do evento é o guisado de cansanção com bacalhau, feito por D. Vilma Coelho. Também serão servidos: guisado de ervilhas com costela de porco, de Palmito com linguiça, de carne de porco com cansanção e ora-pro-nobis com costelinha.
Os “engrossadinhos” também estarão presentes no evento. A mestra Maria do Freguesia vai cozinhar um engrossadinho de fubá, carne de porco, verduras e legumes. Já na receita de D. Elzira Ribeiro vai milho verde com frango e taioba. Para petiscar, serão servidos: croquete, bolinho de mandioca com bacalhau, bolinho de milho com taioba, além dos escondidinhos de mandioca com carne seca e de pernil com abóbora.
Pra quem chegar pro almoço ou pro jantar, as opções são saborosas e variadas: frango caipira com palmito e tutu de farinha de moinho, Saculé (de feijão jalo), frango com milho verde, arroz com suã, feijoada do Magalhães, frango “acervejado” e coxa de frango recheada e o prato Cê Ki Sabe!
Na sobremesa, os doces de raiz de mamão, doce de requeijão baiano em calda, compota de laranja doida, abóbora, banana, doce de jiló, entre outras delícias, fazem parte do cardápio, ao lado das mais tradicionais quitandas preparadas na hora nos fornos e fogões a lenha, que serão instalados na praça especialmente para o festival.

Uma cronista que amo


Encarnação

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Uma das passagens mais eloquentes que conheço sobre a fronteira entre a vida e a morte se encontra no livro Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro. Nele, uma frágil almazinha em formação anima as entranhas de bichinhos silvestres, de um ou dois curumins inocentes, até que, um dia, encarna em um feroz aborígine, o Caboco Capiroba. Canibal convicto, o selvagem engorda europeus cativos com sádica paciência, antes de devorá-los à moda da casa.
No seu retorno ao poleiro dos anjos, depois de livre das amarras do insano Caboco, o desnorteado espírito sobe depressa aos céus, rezando para nunca mais ter de acordar em um mundo tão desalmado como este em que vivemos.
Apesar da tormentosa descrição de Ubaldo, encontro um grande conforto na ideia da reencarnação. Eu adoraria ter a eternidade para ajustar as contas, e não no paraíso ou no inferno, mas na vida terrena que tanto estimo.
Seria mesmo um alento, mas não cultivo tal crença.
Entre as inúmeras vantagens da reencarnação, eu destacaria os sucessivos fins. É uma forma de imortalidade muito diferente da angústia entediante dos vampiros e highlanders, condenados a ser os mesmos ad aeternum.
Um budista emérito me explicou, certa vez, que o que reencarna é uma parte tão ínfima que, nela, não há espaço para nada parecido com o que se entende por indivíduo, ou eu.
A teoria não difere muito da concepção materialista que tenho da morte. Acho que vou virar gás, água; vou apodrecer e servir de alimento para moscas, larvas ou bichos carniceiros. Voltarei para a mãe natureza como Lavoisier previu: sem nada perder, mas também sem deixar vestígios.
Não sei da mágica budista para reorganizar a energia dispersa de volta ao ser. Mesmo incapaz de conceber
o conceito, não deixo de me sentir seduzida pela possibilidade.
Gosto de pensar que homens e mulheres retornam 1 milhão de vezes, alternando os sexos em temporadas distintas; longos ciclos contínuos de masculinidade e feminilidade.
Há os que estão começando a sua caminhada de fêmea e há os que estão abandonando a de macho. Nada a ver com desmunhecar ou falar grosso. Conheço sensualíssimos mulherões curvilíneos que, tenho certeza, retornarão homens feitos no próximo passeio na Terra.
Eu ia dar exemplos, mas temo ser deselegante. Sirvo eu de cobaia.
Nasci menina, tenho todos os romantismos de menina, mas a maneira como dispenso ajuda na hora de carregar as malas, o modo como me visto, tão afeito a alfaiatarias, e a inadequação ao ritual de beleza que meu sexo impõe me fazem desconfiar que deixei de fazer a barba há pouco tempo.
Tenho amigas que estão no auge da sua feminilidade, mas são tão diretas, ativas e voluntariosas que, notadamente, já estão tomando o rumo oposto.
Nunca pensei na questão da homossexualidade. A opção óbvia seria situar os que fazem essa escolha nas extremidades de cada fase.
Mas uma segunda consideração me fez fugir do esquema. Eu me lembrei dos Dzi Croquetes e de Silvinho, o cabeleireiro do Jambert, a locomotiva dos anos 70. Silvinho reinou alto, lindo, peludo e selvagem. Era gay e era bi. Aposto que tanto Silvinho quanto Lenny Dale voltarão cabras-machos, ou Barbies demais, sem meios-termos, se é que já não estão por aí. Talvez, o homossexualismo seja a maneira mais rápida de pular os infinitos degraus desse vaivém sem fim.
E você que me lê? Gostaria de renascer moça ou moço? Tem inveja do pênis? Morre de vontade de usar minissaia e não pode? Quantas encarnações ainda lhe restam no estado em que está?
***
Gostaria de agradecer à leitora Lêda Couto Ferreira, que me escreveu alertando que progenitora é avó, e não mãe, como eu supunha. Obrigada, Lêda.
A propósito, minha genitora me deu de presente um livro besta, desses que se compram nas caixas das livrarias, chamado Os 300 Erros Mais Comuns da Língua Portuguesa. Para os que, como eu, sofrem com a gramática, fica aqui a recomendação.
Tags: | | | | Publicado em: Crônica da semana

domingo, 29 de julho de 2012

POEMA DO FILME : EM SEU LUGAR


EU LEVO SEU CORAÇÃO COMIGO


Eu levo seu coração comigo

Eu o levo no meu coração

Eu nunca estou sem ele

Onde quer que eu vá você irá, minha querida;

E o que é feito só por mim é seu feito, minha amada

Não temo o destino

Pois você é meu destino, meu encanto

Não quero o mundo

Pela beleza de você ser meu mundo, minha verdade

E você é tudo o que a lua sempre representou

E tudo que um sol irá louvar será você

Eis o maior segredo que ninguém conhece

E eis a raiz da raiz e o broto do broto

E o céu do céu de uma árvore chamada vida;

Que cresce além do que a alma sonharia

Ou a mente poderia esconder

E este é o milagre que mantém as estrelas afastadas

Eu levo seu coração

Eu o levo no meu coração.


Para quem desejar ver um filme leve,aconselho o delicioso Em seu lugar,com Cameron Diaz,Toni Collette e Shirley Mac Laine.
O poema acima foi declamado por Maggie no casamento da irmã.


EM SEU LUGAR (IN HER SHOES) é a história alternadamente hilariante e emocionante de duas  irmãs, Maggie e Rose Feller, que não têm nada em comum a não ser o fato de calçarem o mesmo número. Ao mesmo tempo são melhores amigas e o oposto uma da outra no que se refere a valores, objetivos e estilo pessoal. Maggie (Cameron Diaz) é uma mulher festeira que não gosta de estudar, muda de empregos constantemente e acredita que seu maior talento é sua capacidade de atrair o sexo oposto. A sua falta recorrente de trabalho acaba deixando-a virtualmente sem ter onde morar e ela pula de um sofá para outro em casa de amigos ou parentes. Sem confiança alguma em suas habilidades intelectuais, ela privilegia a maquiagem e não os livros e tem um talento inato para escolher o acessório perfeito e a roupa para qualquer ocasião. Rose (Toni Collette) é uma advogada formada em Princeton que trabalha num dos maiores escritórios da Filadélfia. Seu apartamento, construído antes  da 2ª Guerra, é lindamente decorado e serve como refúgio para o mundo lá fora. Com o nariz permanentemente enfiado no trabalho, ela luta contra seu peso e nunca se sente confortável nas roupas que usa. Sua baixa auto-estima em relação a sua aparência física fez com que sua vida amorosa desaparecesse. A única alegria da vida de Rose são os sapatos (porque eles sempre servem), mas infelizmente ela tem poucas oportunidades para tirá-los do armário. Depois de uma terrível briga, as duas irmãs embarcam numa difícil viagem em direção a uma verdadeira apreciação uma da outra - que recebe um auxílio com a descoberta de sua avó, por parte  de mãe (Shirley MacLaine), que elas imaginavam morta. Através dessa conexão com sua avó, Ella, Maggie e Rose aprendem a fazer as pazes consigo mesmas e uma com a outra.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Dia do Escritor


Laura Medioli
Levo comigo um notebook novo, embrulhado em papel colorido. Dentro dele, um mundo a ser descoberto
Publicado no Jornal OTEMPO em 24/07/2012

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FOTO: Acir Galvão
À espera da vida
Perdida em um bairro longínquo de Contagem, finalmente cheguei à casa onde moravam o garoto Vinícius e sua mãe, Zenilda. Vinte anos de idade resguardados num corpo franzino e delicado, marcado pela dor dos rins que não funcionam e pelo acesso, onde, três vezes por semana,  uma hemodiálise é feita. Três anos na fila de espera por um transplante. Mocidade sem jogar bola, sem poder viajar com amigos, sem andar de bicicleta, sem correr atrás das oportunidades que o mundo oferece aos jovens. Sua corrida é contra a vida, lenta, persistente, devagar, para não se cansar muito. Além da espera e da esperança, quase nada tem a se fazer.

Levo comigo um notebook novo, embrulhado em papel colorido. Dentro dele, um mundo a ser descoberto. Será o companheiro mais constante, inclusive no hospital São José, durante as quatro horas seguidas de tratamento, três vezes na semana. Ali, poderá jogar paciência, FreeCell, contatar amigos no Facebook, ler notícias do planeta inteiro, expandir o seu pequeno mundo.

Ter lhe dado essa possibilidade não tem preço. Impossível não se emocionar, não se solidarizar, em sua espera, com palavras de incentivo e apoio:

- Um dia chegará a sua vez, tenha certeza disso! 

Despeço-me do garoto franzino que, com as mãos trêmulas, acena para mim. Ganhei meu dia.

Ontem, foram à minha casa avisar:

- Laurinha! Marião fez transplante e passa por necessidades.

Uma grata surpresa saber que a minha velha amiga, acometida por doença de Chagas, teve a chance de renascer. Enquanto me dirigia à sua casa, voltava no tempo, quando a conheci. Na época, moradora de um assentamento de terra, debaixo de uma lona preta, ela já exercia sua liderança. Trabalhadora incansável, cozinheira de mão cheia em casa de família, restaurantes, casa de apoio a portadores de HIV... Além do trabalho remunerado, o comunitário, sempre à frente nas causas que defendia. Seu sorriso largo é sua marca registrada. Vive rindo, mesmo durante as maiores adversidades. Nunca perde a esperança. E, quando a doença se agravou, encaminhada pelos médicos, entrou na lista do transplante. Mais de dois anos de espera.

Enquanto Vittorio, meu marido, aguardava por um fígado em São Paulo, Marião aguardava por um coração em BH. Distantes, vivenciando o mesmo drama.

Na porta, sou atendida por Gabriel, o caçula, com nome de anjo e camisa do Cruzeiro. Pede-me para passar álcool nas mãos antes de entrar no quarto da mãe. Marião me sorri como antes. Uma figura essa mulher! Penso, divertida, ao encontrá-la tão bem. Há um mês e meio transplantada, vem me mostrar com orgulho a sua cicatriz, por onde retiraram seus males e introduziram sua vida.

Fala-me com admiração e carinho do doutor Sílvio e  dos outros cardiologistas/cirurgiões da equipe da doutora Maria da Consolação que a atenderam. Médicos no verdadeiro sentido da palavra. Conta das dificuldades do dia a dia de um hospital que vive sua luta diária a favor da vida, da falta de sangue, que dificulta cirurgias, dos pobres vindos do interior, sem ter onde ficar, das cadeiras frias e corredores tristes do PA, onde permanecem os acompanhantes, mas fala, acima de tudo, da obstinação, da competência e do imprescindível valor humano que encontrou ali, no Hospital das Clínicas, onde nasceu de novo.

Sente-se feliz porque, de 2008 até 2012, esteve entre a vida e a morte. Agradece todos os dias a Deus, ao seu doador e à sua família. Ao doador que, além da dela, salvou mais três vidas. Também agradece aos doadores de sangue.

- Eu  precisei de muito sangue, sabia? Ela me diz, emocionada.

Tento fazer com que se cale um pouco. O esforço da fala ainda a cansa. Gabriel me chama para comer o bolo de laranja que ele mesmo fez. Nos últimos anos, cuidou da mãe como uma mãe cuidaria de um filho. Treze anos apenas e tamanha responsabilidade. Conta-me das noites sem dormir, das madrugadas ligando para o Samu, acompanhando a mãe ao hospital, do feijão com arroz que aprendeu a fazer, dos remédios controlados que não deixa de dar nos horários certos. Olhando para aquele menino, vejo que o anjo não está apenas no nome que carrega. Um garoto e tanto!!!

Despeço-me com um sorriso largo, que nem o da Marião. Nas mãos, levo uma forma gigante com pudim de leite, presente do Gabriel. Ganhei minha tarde.

Antes de finalizar este texto, lembro-me do também garoto, carioca, que se transferiu para São Paulo. Dois anos residindo num hospital, longe da família, à espera de um coração. E que, numa entrevista, solicitado a deixar uma mensagem, com os olhos lacrimejantes, disse:

- Pior que perder uma vida é perder duas.
LAURA MEDIOLI escreve no Magazine às terças-feiras. laura@otempo.com.br

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Outra crônica de Laura Medioli


Couves, mangas, flores e... deixa pra lá!
Se fosse para eu viver de vendas, estaria lascada. Definitivamente, essa não é minha área. Não por falta de experiência, afinal, desde menina procurei vender meu peixe, minhas couves, mangas etc.
Explico: tínhamos em nossa horta uma plantação grande de couves e alfaces. E eu, com meus 9, 10 anos, resolvi me encarregar das couves, regando-as, desgrudando ovinhos de borboletas (umas coisinhas minúsculas e bonitinhas de cor amarela), tirando larvas, jogando esterco. Diariamente, ia conferir minha plantação. Quando o canteiro ficou repleto, resolvi vender o excedente para uma mercearia, cujo dono era amigo de minha mãe. O problema é que eu morava na Pampulha e a tal mercearia ficava no bairro de Lourdes. Amarrava alguns molhos escolhidos a dedo e ia com o senhor
Artur (antigo motorista da casa) levar as couves. Voltava para casa cheia de moedinhas, guardadas em um porco de cerâmica ou gastas no primeiro baleiro que encontrava no caminho. Mal sabia que a gasolina consumida para chegar ao local valia bem mais que as moedas adquiridas.

Na mesma época, eu e meu primo montamos uma barraquinha de frutas caseiras no ponto de ônibus em frente à nossa casa na Catalão - avenida recém-construída e bastante empoeirada. A universidade estava em obras, e a "freguesia" era enorme. Tinha dia que nosso estoque de mangas, goiabas e jacas ia todo embora. E foi por causa de uma jaca que eu e meu primo nos desentendemos. Fechamos a barraca e nunca mais vendemos frutas.

Mais velha um pouco, fui vender flores e plantas na flora de meu irmão. Como não sabia o nome das plantas e só podia ficar meio horário, acabei virando uma espécie de office-boy. Fila de banco era comigo mesmo. Com 15 anos, mas com cara de 10, fazia sucesso entre as bancárias. Achavam lindo aquela pirralha, cheia de documentos e cheques na mão, explicando direitinho o que queria. Lembro-me de que uma sempre chamava a outra para ver:

- Olha só que bonitinha! Desse tamanhinho e já trabalhando.

Só faltava passarem a mão na minha cabeça e me oferecerem pirulitos. Falavam isso achando que me agradavam, e era justamente o contrário. Odiava ouvir esses comentários, essa série de "inhas" com que normalmente referiam-se a mim. Bonitinha, engraçadinha, pequenininha, meiguinha... Com 15 anos eu queria mais era ser bonitona, altona, sexy e por aí vai. Acabei me acostumando com os "inhas" e hoje, para ser sincera, dou graças a Deus. Tanto que, antes que minhas filhas, cada uma mais "inha" que a outra, comecem a reclamar, já vou logo dizendo:

- Meninas, agradeçam a Deus. Desse jeito vocês vão custar a envelhecer! Felizmente, isso, para elas, é uma questão bem-resolvida.

A flora foi vendida, e eu, para ocupar meu tempo, entrei como voluntária numa creche mantida pela paróquia do bairro. Passava a tarde rodeada por crianças berrando e sujando as fraldas. Minha missão era distraí-las e não deixá-las saírem do espaço determinado pelas coordenadoras. Apesar do tamanho, eram espertíssimas. Lembro-me de que ficava exausta de tanto correr atrás. Era menino pendurado na cerca, comendo terra dos vasos, se engalfinhando com outros, e eu lá, uma quase menina cuidando de outros. Eles me adoravam, e era recíproco. Fiquei ali alguns meses, e, como na escola, as coisas estavam se complicando pro meu lado, nas matemáticas da vida, saí.

Depois, fui trabalhar com outro irmão e seu sócio numa firma de casas pré-fabricadas. Comecei como arquivista e, claro, "office-boy". Pelo jeito, o meu destino eram as filas quilométricas dos bancos. Vivia no ônibus pulando de um banco ao outro com a melhor cara do mundo. Trabalhava meio expediente e achava ótimo. Acabei como secretária, responsável por correspondências datilografadas, envio de telex, arquivo etc. Veio a crise, e a empresa fechou as portas. Dediquei-me mais aos estudos, aos estágios, às aulas de inglês e italiano e, posteriormente, às faculdades (fazia duas ao mesmo tempo).

Não lembro bem em que época, mas, incentivada por uma amiga, ainda menina, encontrei-me de novo às voltas com as vendas. Foi numa página de pequenos anúncios que li: "Produto de alta aceitação no mercado precisa de vendedoras - não é necessário experiência". Uau! Isso foi feito pra mim. Arrumei-me toda, salto alto, batom vermelho para aparentar mais idade e fui atrás do tal produto. Meio decepcionada, saí com uma sacola na mão carregando a coisa mais boba e inútil do mundo: medidores de gás - umas geringonças desmontáveis que, acopladas ao gás de cozinha, apontavam quando este estava acabando. E eu, mais boba ainda, saí na rua com aquilo, oferecendo a quem encontrava pelo caminho. Lembro-me de que entrei num apartamento na Savassi e toquei a campainha, quando um garoto lindo e com cara de sono atendeu. Sem graça por tê-lo acordado no meio da tarde, ainda mais para vender medidor de gás, me saí com esta:

- Oi! Essa é a casa da Ana?

Naturalmente torcendo para que não houvesse nenhuma Ana. Felizmente, não havia. Peguei minha sacola e, com os pés doendo de tanto andar, voltei pra casa. Entendi que não servia para vendedora, nem de medidor, nem de gás, nem de coisíssima nenhuma. Três dias depois, devolvi os produtos. Ah! Esqueci-me de dizer: vendi um. Pra minha mãe.

Mais uma crônica de  Laura Medioli